segunda-feira, maio 12, 2008

Alina

Perdi meu pai aos seis anos. Não me lembro de quase nada dele, nem da minha infância. Mas algumas lembranças existem: Minha mãe fazendo uma peça de teatro pra ele. Cantando Clara Nunes ao acordar. Fumando seu cigarro enlouquecidamente. Me levando à escola de opalão na segunda marcha - ela nunca passava disso - quase fundia o motor do carro toda vez.
Ah! Lembro também dela fazendo festas surpresa. Ela é boa nisso. Sempre foi.
Minha mãe cozinha divinalmente. Parte do carinho dela vem de te acalentar com uma refeição. Faz pamonha, acredita? E conhece as plantas e mexe na terra com alegria e conhecimento.
Sabe tudo de construção, leilão de gado e contabilidade, mesmo sendo professora aposentada.
E fala. Como fala. Ansiosa dos olhos não pararem. Brilham, porque tudo o que diz tem alma. Se arrepia toda ao contar algo que a emociona.
Sabe que durante muito tempo não tive paciência com ela? A gente é muito diferente, mas beeem igual. Se é que dá pra ser assim. Mas agora posso dizer que, além de mãe, ela é minha amiga.
Ela é aquela que te dá forças até qdo você não quer. Mas juro que não é invasiva. Deixava eu dormir em sua cama todas as noites e não se importava com meu jeito espaçoso.
Alina me chamava de Tica e eu odiava. Tinha raiva desse apelido. E não deixava eu tomar mais que um Yakult por dia. E nem comer em frente à Tv.
E na páscoa? Escondia os ovos... fazia pegadas de coelho.
Já no natal, a árvore ia até o teto. E o presente eu encontrava no pé da cama dia 25 de manhã.
Queria que eu usasse bota sete léguas e deixava meu cabelo sempre curtíssimo. Me obrigou a fazer balé.
Ia à missa toda semana, mas era melhor amiga de um cardecista e realizava trabalhos voluntários pro centro espírita.
Minha mãe foi pai e mãe. Daquele tipo que mandava vc chegar das festas às duas da manhã e ficava de roupão vermelho andando pela casa até vc entrar na sala.
Ainda bem que as lembranças boas permanecem mais na mente da gente.
Mãe: parabéns por você ter conseguido. Todo meu amor.

3 comentários:

Paloma de Montserrat disse...

Ai sussa, chorei. Alinão é demais.

Cice Galoro disse...

Será que alguém não vai chorar?? Tô de bóia até Toca. Muito linda a história de vocês duas.

Pequena Russa disse...

bonitas.